Animação cultural de Vilém Flusser

Na narrativa de um objeto-mesa, me chama a atenção o retrato da ciência e a sociedade ocidental do século XIX. Essa época é marcada pela lógica cartesiana, que posicionou a razão como absoluta para a compreensão da realidade. Entretanto, essa visão está longe de ser neutra, o processo cientifico não é sustentado por fatos estáticos, mas sim por um caminho dinâmico de refutações e validações, que formam uma totalidade sempre em movimento. É neste contexto que introduzo o conceito de hipertelia, que se refere à extensão da finalidade de um objeto. Como observa Milton Santos, a hipertelia de um objeto é condicionada pelo seu entorno, pelo sistema técnico que o cerca. Complementando essa ideia, o autor do texto Vilém Flusser destaca que nós, inseridos nessa complexidade técnica, nos tornamos dependentes dos objetos. Esse processo pode ser exemplificado pela utilização de máquinas em pesquisas, que promove um campo limitado por elas ditarem o que vale a pena pesquisar (o entorno da hipertelia engloba também aspectos políticos). Diante disso, há uma dupla limitação, o objeto condicionado pelo sistema e o homem condicionado pelo objeto - o que nos transforma em homens-objetos.

Acredito que a base do pensamento está na intuição e no que é considerado irracional. Portanto, o primeiro passo para desvincular-nos da animação cultural-racional é justamente reconhecer sua natureza mutável e impositiva. Só assim, podemos abrir espaço para a diversidades de ideias, que pertence ao verdadeiro progresso. O objetivo final é ousar questionar as finalidades impostas pela técnica - reconhecendo seus triunfos - e  reivindicar o ser humano, em toda sua complexidade e liberdade, como verdadeiro sujeito da história. 

Daniel Castelo Branco, 09 de setembro de 2025

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