Diálogo de Flusser com Hertzberger

 Em uma de minhas leituras, me deparei com uma citação de Bonsiepe que dizia papel do projetista era não apenas desenvolver uma sensibilidade em relação às necessidades de um grupo, mas também oferecer uma resposta material embasada em um sistema de referência cultural. A professora Erica ilustrou esse ponto com um exemplo relacionado à instalação de privadas em uma comunidade indígena cuja cultura tradicional faz uso da floresta para suas necessidades fisiológicas.

No entanto, o professor Sandro problematizou a noção de "cultura" em si, questionando: "Qual cultura?".
Afinal, segundo ele, a cultura é heterogênea e diversa. Dessa forma, o enfoque do projeto deve ser garantir liberdade na arquitetura, permitindo diferentes usos e adaptações que busquem superar parcialmente as transformações culturais, isto é, a tentativa de abarcar a totalidade do coletivo.

É fundamental apontar a ideia de Flusser sobre a contradição da cultura: cada mudança gera novos obstáculos, tornando o progresso um processo complexo e contínuo.

Nesse sentido, o projetista não deve se limitar a criar itens meramente utilitários, mas sim conceber espaços que enfatizem a comunicação e a intersubjetividade. Essa visão de Vilém Flusser dialoga diretamente com a perspectiva de Herman Hertzberger, que critica a desumanização dos espaços de trabalho com o fim da decoração expressiva. Hertzberger defende que os indivíduos devem ser agentes ativos na configuração de seus ambientes, como exemplificado pela sala de estudantes do MIT, que organizaram suas pranchetas em diferentes direções, criaram zonas para dormir, comer, receber visitas etc. Essa ideia dialoga com a de Paulo Mendes da Rocha: “A arquitetura é um desejo humano”.

Uma passagem que me chamou muita atenção no livro do Hertzberger são as portas em asilos divididas em duas seções, que garantem privacidade ao mesmo tempo que permitem interação social. O paralelo com Flusser reside justamente na questão da liberdade: de uso, de significações e de relações que os projetos possibilitam. Talvez seja essa o fundamento da autonomia humana, que tanto dialoga com o outro. 

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